quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Significativas primeiras vezes


Andavam em direção ao ponto de ônibus. Enquanto caminhavam, ele queria lhe mostrar o bairro que havia morado por tanto tempo. Como se as ruas , as árvores e as lojas fossem dizer a ela todos os momentos bons que ele tivera. Isso não aconteceu. Durante a caminhada ela imprimia seus próprios significados às coisas. Coitadas, elas - as coisas- não têm paz. Por isso que Alberto Caeiro insistia em dizer que as coisas são coisas e mais nada. Não precisamos entendê-las para serem. Mas Alberto Caeiro é difícil de se levar ao pé da letra....

Pegaram o ônibus. Entardecia e ela começava a reparar no espetáculo que o céu preparava enquanto ele falava sobre aprender inglês ou algo assim. Seu cérebro, tentava, de alguma forma,conciliar todas as informações que recebia naquele momento. E funcionou, pois ela ainda se lembra que o assunto era em torno da palavra whatever.

Desceram. Na verdade, ele desceu. Ela apenas o seguia, o caminho era novo. Tudo era novo. Em frente ao shopping deram de cara com a decoração de natal que,obviamente, não era páreo para o pôr do sol.
Luzes azuis em volta das árvores, pessoas por todo canto, o shopping, os carros, os prédios e os dois iluminados pela cor rosa e doce que pairava sob a cidade.

Ela começou a apontar: "Olha as luzes como estão lindas.E olha este céu!". Pensou em tirar uma foto. Será que papel e tinta conseguiriam registrar aquilo? A memória se responsabilizaria desta tarefa de forma mais digna.
"Sabe qual o melhor de ter suas primeiras vezes tardiamente?" - perguntou ela.
"Não." - respondeu ele, curioso pelo que havia de vir.
"É  ter a consiência de que é a primeira vez. É ter o pasmo que você teria quando era criança se reparasse que nascera." -  explicou a menina com propriedade enfatizando a palavra "consciência" .

Ela citava Alberto Caeiro.E tentou explicar todavia, de forma tão precária que qualquer um que conhecesse a obra do poeta ficaria envergonhado. Mas ele não conhecia, e isso era bom.
Não conhecia, mas reconheceu o conceito que a menina tentava explicar. Afinal, ele, também menino, haveria de ter muitas primeiras vezes diante do mundo que lhes abria as pernas as portas.

II

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de, vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...
(Alberto Caeiro)






terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Almoço no Shopping Bourbon

Consolo na Praia
(Carlso Drummond de Andrade)
 
Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
 
 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Metáforas Oníricas

A soul in tension that's learning to fly 
 Condition grounded but determined to try
 Can't keep my eyes from the circling skies
 Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I
(Learning to Fly - Pink Floyd)

É imemorial a primeira vez que sonhei que estava voando. Foram tantas as vezes, algumas épocas mais recorrentes, outras menos. Existem dois tipos, diferenciados pelo mote. No primeiro, há uma ameaça e preciso fugir. Estou fugindo e não há escape senão o céu. Vou subindo pelos tetos das casas feito gata até ganhar asas, gata voadora, flying cat e o alívio é grandioso. No segundo, não há razão para voar.Vôo por ser bom. Sinto aquele frio na barriga quando vou subindo e ganhando alturas. A sensação é de morte , mas depois um sentimento de liberdade me toma e me sinto rainha do céu. 
 
Esta semana sonhei duas vezes com este tema. Estava na rua da minha casa andando, depois correndo, e correndo cada vez mais rápido.Sentia o vento e meus cabelos voavam. Foi tão intenso que ainda posso sentí-lo. De repente eu estava flutuando. Freedom must be like this. That's freedom!!! Eu diza , sorrindo para mim mesma.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Carências

Ela: Às vezes eu me sinto só...
Ele: Eu sonhei com isso.
Ela: Eu sonhei que tinha piolhos.foi horrivel. Mas isso não importa. Me conta o seu sonho.
Ele: Eu adorava pegar piolhos quando era criança...
Ela: ! (cara de nojo)
Ele: Era quando passavam a mão na minha cabeça. E me davam banho.
Ela: (!) Espero que tenha encontrado uma forma melhorde ganhar cafuné hoje em dia. E seu sonho?

domingo, 5 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sobre ajudar

Hoje eu estava lendo uma matéria que relatava a experiência de voluntários que ajudaram no Haiti. Enquanto lia fiquei emocionada em alguns trechos. Lembrei-me que na época do ocorrido, muitos diziam que se pudessem iriam pra lá ajudar. Muitos e muitos expressaram solidariedade maspoucos puderam ou quiseram de fato ir até lá, de forma que a ajuda , apesar de bem-vinda, foi pouca. Eu fui uma dessas pessoas, que ficou na vontade.

São muitos os momentos que nos sentimos assim. Quando vemos um pedinte na rua, uma foto de uma criança subnutrida, quando vemos pela TV relatos de tragédia, jovens perdidos na drogas, etc.
No geral, nos comovemos masnos perdoamos (sempre achamos uma desculpa). Damos uma esmola, um  prato de comida, uma palavra de apoio e sentimos que fizemos a nossa parte.

Quase 1 ano que a tragédia a conteceu. Os haitianos (e muitos outros neste mundo) ainda sofrem com as consequências da tragédia e com a miséria do país. Nossas vidas continuam bem e continuamos perdoados.
Eu tendo a não me perdoar.